Nunca é tarde para aprender: lares vicentinos levam a sala de aula para dentro de casa
No Dia Mundial da Alfabetização, três instituições da SSVP contam como oferecem o EJA a seus moradores. São mais de 50 pessoas idosas matriculadas , muitas delas escrevendo o próprio nome pela primeira vez

Há uma cena que se repete, com variações, em casas vicentinas separadas por milhares de quilômetros: uma pessoa com mais de 60 anos se senta diante de uma folha de papel e escreve, pela primeira vez na vida, o próprio nome.
Em Governador Valadares/MG, uma moradora da Casa Dona Zulmira que nunca havia frequentado a escola se emocionou ao conseguir registrar o nome no papel. “Passou a ver ali, de forma concreta, a sua identidade sendo reconhecida por meio da escrita”, relata Yuri Dutra, presidente da instituição. Em Belo Horizonte, na Casa do Ancião Chichico Azevedo, a aluna Maria de Fátima está em processo de alfabetização e já escreve. “Muito importante, porque estamos garantindo a inclusão da pessoa no mundo das letras”, diz a professora Anita Helena Vieira de Souza.
O gesto é pequeno e decisivo. E ele só acontece porque, nessas três casas, a escola atravessou o portão.
Um retrato que ainda pesa sobre as pessoas idosas
O Dia Mundial da Alfabetização foi proclamado em 1966 e é celebrado todo 8 de setembro desde 1967. Em 2026, a data completa 60 anos, sob o tema “Alfabetização para as pessoas, o planeta e a prosperidade”. Segundo a Unesco, pelo menos 739 milhões de jovens e adultos no mundo ainda não dominam habilidades básicas de leitura e escrita.
No Brasil, os números melhoraram, mas continuam concentrados nas gerações mais velhas. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em junho deste ano com dados de 2025, mostrou que a taxa de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais ficou em 4,9%, a primeira vez abaixo de 5% desde o início da série histórica, em 2016. Entre pessoas de 60 anos ou mais, porém, o índice sobe para 13,8%, o equivalente a 4,9 milhões de brasileiros.
São essas biografias que chegam aos lares vicentinos: pessoas que precisaram trabalhar cedo, cuidar da família ou enfrentar outras dificuldades e ficaram pelo caminho antes de aprender a ler.
União dos Palmares/AL: a instituição bateu à porta da Secretaria
Na Obra Unida Casa do Idoso Santo Antônio, em União dos Palmares/AL, 26 moradores frequentam a EJA. Todos têm mais de 60 anos. As aulas acontecem de segunda a sexta-feira, dentro da própria casa, conduzidas pela professora Walquíria com o apoio da auxiliar de sala Madalena.
A iniciativa partiu da própria instituição. “A coordenadora procurou a Secretaria Municipal de Educação da cidade, por entender a importância da oferta dessa oportunidade de inclusão educacional, um direito constitucional garantido a todos”, conta Ana Paula Moura de Melo Silva, assistente social, coordenadora e responsável técnica da unidade e colaboradora do Departamento de Normatização e Orientação (Denor) da SSVP.
O caminho não foi imediato. “A princípio houve, infelizmente, por parte da gestão municipal da época, um desacreditar nessa possibilidade, talvez por subestimar nossos acolhidos”, relata. A decisão mudou depois de uma visita ao lar: “Ao visitarem o lar, puderam sentir de perto a empolgação deles por essa novidade, e assim foi aprovada a implantação da extensão educacional.”
Hoje a parceria tem divisão clara de responsabilidades. A instituição oferece a sala de aula, com ar-condicionado e banheiro adaptado; a Secretaria Municipal de Educação envia as carteiras escolares, o material didático, o fardamento e a merenda.
O que mais chama a atenção da equipe é a disposição dos alunos. “É muito gratificante ver a dedicação deles. Pessoas com mais de 60 anos sentadas em uma sala de aula, empenhadas, aprendendo, partilhando e buscando conhecimento”, diz. “Alguns chegam com receio ou acreditando que não conseguirão acompanhar, mas, aos poucos, vão percebendo sua própria evolução.”
Governador Valadares/MG: das primeiras letras às cartas trocadas com crianças
Na Casa Dona Zulmira, o projeto começou em julho de 2025 e nasceu de um diagnóstico interno. Quando a proposta foi desenhada, dos 39 moradores da instituição, apenas um tinha o ensino médio completo e outro havia concluído o ensino fundamental. A maioria parará no fundamental incompleto.
“O contato com os estudos poderia trazer benefícios significativos para a saúde cognitiva dos residentes, contribuindo para a estimulação da memória, da concentração, do raciocínio e da autonomia”, explica Yuri. “Além disso, a participação em atividades educativas favorece a socialização, o fortalecimento da autoestima e a valorização pessoal.”
A turma reúne 14 moradores, com idades entre 64 e 81 anos, que estudam no período da manhã, das 8h às 11h. A instituição entra com a infraestrutura; o poder público, com o professor e a equipe pedagógica. As aulas são adaptadas ao ritmo dos alunos, com explicações mais pausadas, revisão frequente, atividades impressas com letras ampliadas e exercícios ligados ao cotidiano.
No começo, ficar três horas seguidas em sala era o maior desafio, todos haviam deixado a escola ainda na infância. “Aos poucos, foram assimilando esse novo espaço e reconhecendo os benefícios que esse processo passou a trazer ao longo dos meses”, diz o presidente. Hoje, os estudantes já escrevem o próprio nome e leem parágrafos simples.
Foi essa base que tornou possível o passo seguinte. Desde este ano, a turma participa do Projeto Cartinhas — Acolhimento por Correspondência, uma troca semanal de cartas entre os moradores da Casa Dona Zulmira e alunos da Escola Imaculada. “Ambos os alunos acolheram a ideia com muito entusiasmo. Eles ficam ansiosos pelas respostas toda semana. Apesar da distância de idade, a comunicação tem sido fluida e interessante”, relata a instituição.
O projeto já produziu um reencontro inesperado. Uma das alunas da EJA, Sônia, é tia de Benício, estudante da escola parceira. Os dois descobriram o parentesco quando colegas do menino repararam no sobrenome repetido em uma carta. Agora trocam correspondência em paralelo à do grupo e esperam pelo encontro presencial, previsto para outubro, quando as duas turmas vão se conhecer pessoalmente.
A intenção da casa é manter as aulas até a formatura dos alunos e abrir novas turmas conforme o interesse dos moradores.
Belo Horizonte/MG: um projeto permanente da rede municipal
Na Casa do Ancião Chichico Azevedo, no bairro Ipiranga, a EJA funciona de segunda a quinta-feira, no turno da manhã, dentro da própria instituição de longa permanência. Estão matriculadas 15 pessoas, com idades entre 65 e 94 anos.
A professora Anita é servidora da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), lotada na Escola Municipal Anísio Teixeira, responsável pela EJA oferecida fora do prédio escolar. Às sextas-feiras, ela participa das reuniões pedagógicas na escola. A Prefeitura arca com toda a materialidade do projeto.
A modalidade não nasceu de uma negociação pontual: é uma política pública já existente, que a rede municipal desenvolve em espaços não escolares. “Não há data de término, é um projeto permanente da PBH”, explica a professora. Para o ano seguinte, basta a rematrícula dos estudantes.
Para ela, o ganho vai muito além do conteúdo. Aprender a ler nessa altura da vida “muda no processo de socialização, criação de laços afetivos, memória, coordenação motora fina, dentre outros”. E mudou também a rotina da casa: “Eles passaram a ter uma atividade prazerosa todos os dias.”
Aos lares vicentinos que queiram fazer o mesmo, Anita indica o caminho: procurar a Secretaria Municipal de Educação (SMED) do município para verificar a viabilidade do projeto na casa. “Sem dúvida, é uma ação que muda vidas.”
Educação como forma de cuidado
As três experiências convergem em um ponto: cuidar de uma pessoa idosa não se resume a alimentação, higiene e saúde.
“O trabalho de uma instituição que acolhe pessoas idosas não deve se limitar aos cuidados básicos. É importante olhar para cada pessoa de forma integral, considerando também seus sonhos, desejos, capacidades e potencialidades”, afirma Ana Paula. “Dentro da perspectiva vicentina, entendemos que cuidar é principalmente promover dignidade e proporcionar oportunidades para que cada pessoa continue sendo protagonista da sua história.”
O raciocínio se repete em Governador Valadares. Para Yuri, a iniciativa está diretamente ligada à missão da SSVP, “que tem como princípio fundamental a promoção da dignidade da pessoa humana, especialmente daqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade”. “A educação, nesse contexto, torna-se um instrumento de transformação, fortalecimento da autoestima e resgate da autonomia.”
Há também um efeito prático. A alfabetização devolve segurança para tarefas simples do dia a dia: compreender uma informação, identificar documentos, escrever um bilhete. “Mais do que aprender conteúdos, estamos contribuindo para que eles se sintam mais seguros, independentes e participantes da própria vida”, diz Ana Paula.
E há amparo legal. O Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003) determina, em seu artigo 21, que “o poder público criará oportunidades de acesso da pessoa idosa à educação, adequando currículos, metodologias e material didático aos programas educacionais a ela destinados”. Nas três casas, esse direito virou sala de aula porque alguém foi buscá-lo.
“Nunca é tarde para aprender”
Perguntada sobre qual mensagem gostaria de deixar na data, Ana Paula não hesita. “A principal mensagem é que nunca é tarde para aprender. Que essa iniciativa se espalhe pelas unidades vicentinas, que haja uma reflexão de que a história de uma pessoa não termina quando ela se torna uma pessoa idosa. Pelo contrário: ela continua tendo sonhos, desejos, capacidades e vontade de viver novas experiências.”
“Mais do que ensinar a ler e escrever, estamos ajudando a construir autonomia, autoestima, inclusão e dignidade”, conclui. “A educação transforma em qualquer idade — e, para esses idosos, ela também representa a oportunidade de escrever novos capítulos de suas próprias histórias.”
Escrito por Ricaella Inocente
ssvp.brasil



